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Troféus Eisenhower e Espírito Santo cancelados

“Esta decisão sem precedentes deveu-se à globalidade da pandemia da COVID-19 e a incerteza que ela provocou sobre uma organização bem-sucedida do Mundial de 2020. Mais importante do que tudo, esta decisão foi tomada para salvaguardar a saúde e a segurança de todos os atletas, membros da organização e voluntários, pois não tínhamos a certeza de poder mitigar o risco a um nível aceitável”, disse Antony Scanlon, o diretor-executivo da IGF.

Em fevereiro, a IGF já tinha tomado a decisão de transferir o Mundial de Hong Kong para Singapura, devido aos distúrbios sociais e políticos que se viviam na altura naquele território chinês. Estava previsto para os campos do Tanah Merah Country Club e do Sentosa Golf Club, com o Espírito Santo Trophy (o Mundial feminino) de 14 a 17 de outubro e o Eisenhower Trophy (o Mundial masculino) de 21 a 24.

Antony Scanlon adiantou que a IGF pensou ainda em “adiar o Mundial para 2021″, mas isso iria criar «problemas logísticos e de calendarização consideráveis e insuperáveis», para além de admitir que “não há a certeza de poder-se realizar o torneio no próximo ano sem qualquer risco”. Nesse contexto, a IGF preferiu “olhar para a frente e levar a cabo uma edição maravilhosa em 2002 em França”.

O cancelamento do Mundial não surpreendeu alguns atletas, mas não a Federação Portuguesa de Golfe (FPG).

“Portugal tinha previsto participar em ambos os Mundiais e tínhamos uma época desenhada a pensar nessa competição, mas a verdade é que muitos torneios europeus já foram, entretanto, cancelados. Todos os Campeonatos da Europa (de vários escalões etários) foram adiados, só a primeira divisão irá desenrolar-se e em formatos reduzidos”, disse o diretor-técnico nacional, João Coutinho, à Tee times Golf, em exclusivo para Record.

João Coutinho avisou que, este ano, “a grande maioria das seleções nacionais não irá sair dos seus países, até porque para os jovens viajarem necessitarão de autorização dos pais ou encarregados de edução e nesta conjuntura é mais complicado. Os calendários internacionais tendem a ser nulos em 2020”.

Portugal dispunha este ano, em teoria, de duas equipas com valor para tentar igualar ou superar os recordes nacionais alcançados em 2002, 2004 e 2010.

No Espírito Santo Trophy, na Malásia, em 2002, e em Porto Rico, em 2004, Portugal foi 31.º classificado, em ambos os casos com as jogadoras Carla Cruz, Carolina Catanho e Lara Vieira.

No Eisenhower Trophy, Portugal obteve um honroso 13º lugar em 2010, na Argentina, numa edição em que Pedro Figueiredo foi 9º classificado individualmente. Os outros jogadores foram José Maria Joia e Manuel Violas.

Tendo em conta os resultados alcançados em 2019 e nos primeiros meses de 2020, seria difícil que os Mundiais não contassem com os atletas Leonor Medeiros, Sofia Barroso, Pedro Lencart, Daniel da Costa Rodrigues e Pedro Silva. Poderia haver alguma dúvida sobre quem seria a terceira jogadora, com as candidatas a serem Rita Costa Marques, Sara Gouveia e Ana da Costa Rodrigues. No caso masculino, outros candidatos com peso eram Afonso Girão, Vasco Alves e Pedro Clare Neves.

O seleciconador nacional, Nélson Ribeiro, cauteloso, disse-nos que “tínhamos jogadores sinalizados, mas não obrigatoriamente apenas os que referenciaste. O conceito de competir em/e para equipa abre muito o leque de opções”.

A inexistência de Mundial em 2020 e em 2021 permite à equipa técnica nacional preparar a edição de 2022 com mais tempo, mesmo sabendo que as equipas poderão ser diferentes, sobretudo Pedro Lencart, que tinha previsto tornar-se profissional em 2020, poderá mudar essa transição para 2021, mas dificilmente irá atrasá-la para 2002.

“Temos verificado uma evolução significativa ao nível dos procedimentos dos jogadores que representam a seleção nacional, mas a regularidade dos resultados relevantes ainda está assente em desempenhos individuais. Tratando-se do Campeonato do Mundo, um torneio por equipas, o adiamento possibilitará continuar a corrigir a dependência de prestações individuais e apresentarmos uma equipa na sua melhor versão, onde cada jogador tenha um papel dentro de um propósito de grupo”, sublinhou Nélson Ribeiro.

Dos cinco jogadores que nomeáveis como prováveis convocados para o Mundial agora cancelado, só Sofia Barroso e Pedro Lencart já tinham estado num Mundial, há dois anos, na Irlanda, onde Portugal foi 35.º na prova masculina e 40.º na feminina. Os outros jogadores foram então Leonor Bessa, Sara Gouveia, Afonso Girão e Vítor Lopes. Bessa e Lopes já se tornaram, entretanto, profissionais.

Quando se disputar o próximo Mundial amador, em 2002, Pedro Lencart já será provavelmente profissional, Leonor Medeiros, Daniel da Costa Rodrigues e Pedro Silva deverão estar a estudar e a competir em universidades nos Estados Unidos e Sofia Barroso terá decidido se prossegue uma carreira no golfe ou opta mais pelos estudos.

A Tee Times Golf conversou com os cinco atletas amadores portugueses para saber como reagiram ao cancelamento do Mundial e em que medida isso afeta os seus planos mais próximos ligados ao golfe. Eis as suas respostas.

Leonor Medeiros, campeã nacional amadora e n.º1 do Ranking Nacional BPI da FPG (para amadoras):

“Fiquei super triste e surpresa, porque este era um torneio que pensei que pudesse não ser cancelado por ser só em outubro.”

“Era um torneio que queria muito jogar porque tem um nível espetacular, com as melhores jogadoras do Mundo e esses torneios motivam-nos muito mais. São esses os torneios que gosto mais de jogar e estava muito motivada para este ano.”

“Agora é continuar a treinar porque mesmo sem torneios há que melhorar o meu nível de golfe.”

“Vou para os Estados Unidos para a USF, a University of South Florida em Tampa. Vou no início de agosto de 2021 e esta situação da pandemia não vai alterar em nada nem prejudicar a minha ida para lá. Em princípio, nessa altura, poderemos já estar de volta à normalidade.”

Sofia Barroso, vice-campeã nacional amadora e n.º2 do Ranking Nacional BPI da FPG:

“Fico triste porque um dos objetivos do ano era ficar entre os primeiros 50 lugares a nível individual e fazer a melhor marca por equipas no Campeonato do Mundo.”

“Mas era previsível, visto ser um campeonato que envolve muita gente e seria um risco, mesmo sendo disputado só em setembro.”

“É verdade que entrei com o pé direito em 2020 porque estava a conseguir bons resultados. Poderia dizer que era este ano que teria tudo para decidir sobre o que iria fazer no futuro, uma vez que tinha torneios muito importantes como o Junior Open que já foi cancelado, e o meu último ano no European Young Masters, que foi adiado.”

“Estava a conseguir resultados abaixo do Par, o que iria levar-me para os torneios internacionais com mais confiança. Todo o trabalho que estava a desenvolver com o José Ferreira tem continuado, pois estou habituada a trabalhar com ele através de vídeos e de ligações online. Nesse sentido não tenho sido muito afetada, mas tenho saudades de ir ao campo e vamos ver como isto irá agora continuar com os campos abertos”.

Daniel da Costa Rodrigues, campeão nacional amador e n.º2 do Ranking Nacional BPI da FPG:

“Deste-me esta informação pela primeira vez. Dentro de mim já havia algo que dizia-me que isto era quase inevitável, ou seja, era quase impossível conseguirmos jogar esta competição.”

“Isto claro que afeta a minha época desportiva, não em termos de trabalho, mas mais em termos de motivação, porque seria a competição da qual eu estaria mais à espera ao longo do ano.”

“Isto em nada vai influenciar a ida para os Estados Unidos, pois acabam por ser dois processos, para mim, completamente distintos. Em princípio, irei para o Texas em agosto. Aliás, recebi ontem uma mensagem de que estaria tudo preparado para que isso acontecesse nesses termos.”

“O que este vírus trouxe foi tudo aquilo que um atleta não precisa, que é a dúvida e a indecisão na realização de treinos, competições, ou seja, não se consegue fazer um planeamento para a época nem a curto nem a longo prazo”.

Pedro Lencart, vice-campeão do Campeonato Internacional Amador de Portugal e n.º1 do Ranking Nacional BPI da FPG:

“Não sabia que o Mundial tinha sido cancelado. Fico espantado e triste ao mesmo tempo porque era um torneio que queria muito jogar e tinha preparado de certa forma a minha época para ter um bom rendimento nessa altura. No entanto, é perfeitamente compreensível, porque é um torneio com mais de 200 jogadores e ia ser na Ásia.”

“É triste porque grande parte da minha época tinha sido feita a pensar nesse torneio e a minha passagem a profissional seria após esse torneio.”

“Em relação à minha passagem a profissional, está tudo a ser repensado, não só por causa do cancelamento do Campeonato do Mundo, mas pelo adiamento ou cancelamento dos torneios internacionais. Os próprios circuitos profissionais estão a ser adiados. E é importante perceber se os circuitos profissionais forem congelados se haverá Escola de Qualificação do European Tour e, nesse sentido, se valerá a pena passar a profissional. Estou um pouco à espera e a repensar tudo, mas em princípio irá atrasar o meu processo para 2021, embora ainda não saiba atrasar em quanto tempo.”

“Não é, no entanto, o Campeonato do Mundo que muda a minha passagem a profissional, mas sim todos os torneios, tanto profissionais como amadores, adiados e cancelados. Vou tentar planear o próximo ano”.

Pedro Silva

“O Campeonato do Mundo era o meu principal objetivo para esta época. Não é todos os anos que pode-se representar o nosso país num evento de tao grande notoriedade. Infelizmente, devido a esta pandemia, o campeonato não vai decorrer este ano. Sinto-me triste, mas com um pensamento positivo, e mesmo que não tenha sido este ano, certamente será no próximo e voltarei a ter a oportunidade de lá estar!”

“Relativamente aos Estados Unidos, neste momento a situação mantém-se, tudo aponta para que vá em agosto, mas ainda sem certezas absolutas”.

 

Hugo Ribeiro / Tee Times Golf

Lisboa, 10 de maio de 2020

Fotografia © Octávio Passos / Federação Portuguesa de Golfe